O maior banco de dados online para datações radiocarbônicas de sítios arqueológicos do Brasil.


Antes dispersos em artigos, teses, dissertações e relatórios científicos, o BRC14 organizou décadas de pesquisas arqueológicas realizadas por diferentes cientistas, equipes e instituições do Brasil e do mundo:
No nosso mapa interativo, os registros podem ser filtrados por período, localização geográfica, contexto arqueológico, tipo de material datado e outras informações disponíveis.
Já a animação desta seção apresenta uma visualização temporal dos registros reunidos na plataforma, mostrando como os pontos aparecem no mapa conforme as datações avançam no tempo.
Cientistas voluntários em uma equipe multidisciplinar sob supervisão do arqueólogo e professor Dr. Lucas Bueno, criador e coordenador do Laboratório de Estudos Interdisciplinares em Arqueologia, o LEIA, criado em 2011 na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
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Ao longo da história, diferentes grupos humanos desenvolveram maneiras próprias de compreender o mundo e explicar os fenômenos que observavam, resultando em diferentes formas de conhecimento. Um desses fenômenos é o tempo, que não é vivenciado da mesma forma por todos os grupos humanos, possuindo diferentes formas descrever e medir a passagem do tempo.
Para muitas populações indígenas no Brasil, o tempo é vivido como um ciclo contínuo que interconecta os ciclos da natureza com os conhecimentos e memórias ancestrais, transmitidos por meio dos mitos. O tempo é percebido nos movimentos e ritmos da natureza, como os ciclos de chuvas e secas, na floração das plantas, na migração de peixes e no movimento dos astros no céu. Esses referenciais da natureza servem como marcadores importantes para práticas sociais e culturais, como encontros coletivos ou rituais de iniciação. Na perspectiva indígena de tempo cíclico, o passado não fica “atrás” do presente, mas continua vivo, integrado ao presente e ao futuro. Isso é observado no conhecimento ancestral que é repassado por meio das narrativas, mitos de origem e histórias dos povos indígenas, que muitas vezes estabelecem conexões profundas com a paisagem, bem como na presença de ancestrais nos rituais praticados.
Já a visão ocidental moderna entende o tempo como a sequência de eventos linear, que pode ser medido e quantificado. Assim, os eventos são organizados em uma linha do tempo com passado, presente e futuro, divididos em categorias como horas, dias, anos, séculos ou milênios. Na arqueologia, o tempo é uma das maneiras utilizadas para interpretar os vestígios e sítios arqueológicos, buscando entender mudanças e permanências ao longo da história. Para isso, a arqueologia emprega dois tipos principais de medir o tempo: a datação relativa e a datação absoluta.
Datação relativa: organizando o passado sem contar os anos
A datação relativa é uma maneira de organizar vestígios arqueológicos para entender a ordem em que os acontecimentos ocorreram. Em vez de dizer a idade de um objeto ou de uma camada de solo, esse método nos ajuda a identificar o que aconteceu antes e o que veio depois. Foi o primeiro método desenvolvido para organizar o tempo na arqueologia e se baseia em dois princípios principais:
1) Sobreposição de camadas (estratigrafia): é um princípio fundamental da geologia que foi utilizado por outras áreas, como a paleontologia, para estimar a passagem do tempo. Esse princípio é muito simples: em uma sequência estratigráfica sem perturbações, as camadas inferiores serão mais antigas que as camadas superiores. Uma forma de visualizar esse princípio é imaginar um bolo: a massa que está embaixo, foi colocada primeira e seria mais antiga, enquanto a cobertura, que está no topo, foi colocada por último e é mais recente.
2) Tipologia: Os objetos feitos pelas pessoas também mudam de estilo ao longo do tempo, como acontece com as roupas, carros e até com a arquitetura das casas. Ao observar a forma, o estilo e, em alguns casos, o material que foi utilizado para produzir um instrumento, os arqueólogos podem estimar se ele é mais antigo ou mais recente em comparação com outros objetos da mesma função.
Datação absoluta: estimando a idade em anos de um evento
No início da década de 1950, a arqueologia passou por uma grande transformação com a criação da técnica de datação por radiocarbono. Pela primeira vez, foi possível estimar a idade de vestígios arqueológicos, e de outros fenômenos, em anos de calendário. Essas datas podem ser apresentadas de duas formas: como Era Comum (EC) ou como Antes do Presente (AP), que toma como referência o ano de criação da técnica de datação por radiocarbono. A datação absoluta tornou-se fundamental porque permite identificar quando, em anos, um fenômeno ocorreu no passado, sempre considerando uma margem de erro. Na arqueologia brasileira, as técnicas de datação absoluta mais utilizadas são por radiocarbono (14C) e luminescência (TL e OSL).
Esse é um tema cuja resposta pode mudar à medida que novas pesquisas são realizadas. Atualmente, os sítios arqueológicos mais antigos do Brasil concentram-se em duas regiões principais: a Serra das Araras, no Mato Grosso, onde se localiza o sítio Santa Elina; e a Serra da Capivara, no Piauí, onde estão os sítios Boqueirão da Pedra Furada, Vale da Pedra Furada, Sítio do Meio e Tira Peia. Todos esses cinco sítios arqueológicos apresentam datas entre 20.000 e 30.000 anos antes do presente.
Quando o assunto é a antiguidade da ocupação de um sítio arqueológico, é importante lembrar que dificilmente a arqueologia consegue determinar exatamente o primeiro momento de ocupação de uma região. Isso porque as datações dependem de materiais que tenham sido deixados durante o uso daquele lugar e cujos vestígios tenham sobrevivido até os dias de hoje. Além disso, esses materiais precisam ser identificados, coletados e analisados por arqueólogos. Essa, sem dúvida, é uma longa jornada.
Quando falamos da ocupação inicial de um lugar até então desconhecido por um determinado grupo humano, é esperado que as primeiras incursões sejam realizadas por poucas pessoas, que permanecem ali por um período relativamente curto, explorando caminhos e reconhecendo o novo território. À medida que esse lugar passa a ser conhecido, tende a ser ocupado com maior frequência e por um número crescente de pessoas. Como consequência, aumentam também as chances de que objetos, resíduos de atividades e outros vestígios materiais sejam deixados para trás e, milhares de anos depois, se tornem a nossa principal fonte de informação.
Ou seja, muitas das datas de que dispomos hoje para o povoamento da América podem corresponder a um momento em que esses locais já eram relativamente conhecidos e frequentados. Nesse sentido, as datas atualmente disponíveis podem ser entendidas como uma idade mínima para a ocupação humana dessas regiões. O processo de povoamento que levou essas populações até ali provavelmente começou antes, mas seus vestígios podem não ter sido preservados, ainda não ter sido encontrados ou simplesmente não terem sido datados.
Esta certamente é uma resposta que está (felizmente) sempre mudando. Como já vimos, a datação absoluta de um sítio é obtida através de análises físico-químicas de certos tipos de materiais encontrados e coletados durante escavações nos sítios arqueológicos.
Assim, as datações disponíveis têm uma relação direta com as pesquisas e análises realizadas e com os métodos utilizados.
Atualmente (março de 2026), podemos dizer que a datação mais antiga obtida pelo método de datação de C14 para um sítio localizado no Brasil é de 24.700 anos antes do presente.
Ela se refere a uma amostra de carvão proveniente da Toca do sítio do Meio, localizado no Piauí. Essa amostra está associada a um contexto composto por muitos vestígios de artefatos líticos.
A arqueologia brasileira tem passado por várias transformações nas últimas décadas. Uma delas envolve considerar que todos os vestígios arqueológicos identificados no que hoje entendemos como território brasileiro, cujas datas remontam a um período anterior ao século XVI, se refere, aos diversos povos indígenas que habitaram e seguem habitando essas terras a milênios. Assim, todo sítio arqueológico que apresenta datas mais antigas do que 500 anos atrás pode ser considerado como parte integrnte de uma longa história indígena.
Mas e o sítios mais recentes, com datas entre a partir do século XVI? Os sítios desse período vão refletir a história recente dessa macro-região que chamados de Brasil e estarão associados ao diversos processos de interação cultural que marca nossa história. Ou seja, a relação com a história indígena não cessa, não para em 1500. Na verdade, ela segue viva até os dias de hoje, representada pelos mais de 200 povos indígenas que seguem habitando o território brasileiro, mantendo e transformando histórias milenares marcadas em relações muito fortes de ancestrallidade com seus territórios.
Pelo que sabemos hoje, o território que atualmente chamamos de Brasil foi sendo ocupado ao longo de milhares de anos, por diferentes caminhos e em diferentes momentos. Como já vimos, as datas mais antigas conhecidas concentram-se entre as regiões Centro-Oeste e Nordeste, em uma área que denominamos Planalto Central Brasileiro, localizada aproximadamente no centro da América do Sul. Durante um longo período, de milhares de anos, as evidências arqueológicas mais antigas conhecidas estão restritas a essa macro-região.
Esse é um tema particularmente interessante porque, de acordo com as principais hipóteses sobre o povoamento da América, as primeiras populações chegaram ao continente pelo norte, seguindo a costa do Pacífico e, possivelmente, também rotas pelo interior. Isso nos leva a uma questão importante: como conectar essa área do Planalto Central Brasileiro à região de entrada dessas populações na América do Sul? Essa é uma pergunta que ainda mobiliza intensos debates entre arqueólogos e que ficará para outro momento.
Outra região que apresenta datas bastante antigas, com uma história que remonta a pelo menos 12.000 anos, é a Amazônia. Sim, a Amazônia! Aquela antiga ideia de uma floresta praticamente desabitada já não se sustenta diante das evidências arqueológicas disponíveis. Hoje conhecemos sítios arqueológicos datados entre 11.000 e 12.000 anos antes do presente em diferentes áreas da Amazônia, desde o alto até o médio e o baixo curso do rio Amazonas.
Também desse intervalo, entre 11.000 e 12.000 anos, datam os sítios mais antigos do Nordeste. Esses sítios apresentam características que muitos arqueólogos consideram bastante semelhantes às observadas nos sítios do Planalto Central Brasileiro. Por isso, parte dos pesquisadores interpreta essas duas áreas como integrantes de um mesmo processo de povoamento.
Na região Sul, por sua vez, as datas mais antigas conhecidas são, até o momento, um pouco mais recentes, em torno de 11.000 anos antes do presente. Em termos arqueológicos, essa diferença cronológica é relativamente pequena. No entanto, mais importante do que a idade é o fato de que os conjuntos de vestígios materiais encontrados nesses sítios apresentam características bastante diferentes daquelas observadas na Amazônia e no Planalto Central Brasileiro.
Ao reunir informações sobre a cronologia, a distribuição espacial dos sítios arqueológicos e as características dos vestígios materiais associados a esses contextos, trabalhamos atualmente com a hipótese de que o povoamento dessas regiões ocorreu por meio de três grandes conjuntos de processos distintos, embora quase concomitantes: um relacionado ao Planalto Central Brasileiro (Centro-Oeste e parte do Nordeste), outro à Amazônia e um terceiro à região Sul.
Dentro desse cenário, a costa Atlântica parece ter sido a última grande área a ser ocupada, configurando, de maneira geral, um movimento de ocupação de oeste para leste.
Em construção
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